Espuma dos dias — A ‘armadilha de credibilidade’ potencialmente destrutiva da Arábia Saudita . Por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

7 min de leitura

A ‘armadilha de credibilidade’ potencialmente destrutiva da Arábia Saudita

 Por Alastair Crooke

Publicado por  em 17 de Setembro de 2026 (original aqui)

 

A Arábia Saudita enfrenta uma escolha estratégica: capitular às exigências de AnsarAllah [1] ou ser arrastada para uma armadilha de credibilidade. A armadilha é que MbS [Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro e primeiro-ministro da Arábia Saudita] pode procurar manter a credibilidade da tutela professada do Reino dos lugares sagrados e como um ‘pólo’ islâmico sunita, recusando-se a condescender com as exigências de AnsarAllah.

O dilema é que, por um lado, quaisquer concessões correm o risco de fornecer mais oxigénio à ‘Revolução‘ de AnsarAllah, que está a ganhar força e a energizar as pessoas em toda a Ásia Ocidental. Por outro lado, ao insistir na posição monárquica da Arábia Saudita e nos requisitos relativos ao seu sistema, o príncipe MbS pode estimular a oposição interna numa direção diferente – do panteão das tribos Sauditas, muitas das quais ainda abrigam uma raiva persistente pela sua marginalização, posição diminuída e status impostos pela ‘empresa monárquica de uma família’.

Desde o início, a monarquia saudita concentrou as recompensas financeiras do país numa única casa e chamou-lhe “unidade”. No entanto, a unidade construída sobre a exclusão é uma fratura vulnerável às exigências das tribos negligenciadas quanto a um devido peso político e a uma parte justa das receitas do Reino.

Os ocidentais hoje olham para o Reino Saudita através de uma lente diferente; o seu olhar é tomado pela sua riqueza, pela sua aparente modernização e pela sua professada liderança do mundo islâmico, e não pelas contradições fundamentais subjacentes do Reino. Eles escolheram presumir que o reino estava a curvar-se perante os imperativos da vida moderna, e que a gestão e transformação do islão sunita também faria o reino curvar-se perante a vida moderna.

No entanto, a posição do Reino Saudita é uma coisa estranha – e é mais fraca do que geralmente se supõe. As contradições inerentes ao país podem muito bem fazer com que Riad intensifique a guerra no Iémen, a fim de preservar a sua posição, apesar da notável falta de apoio dos Aliados.

(Parece que a reticência de Trump em ajudar a Arábia Saudita pode refletir intenso lobby dos Emirados Árabes Unidos — rival amargo de MbS — que está a tentar persuadir Trump a não apoiar qualquer guerra saudita renovada contra o Iémen, uma vez que isso enfraqueceria ainda mais os interesses em colapso dos Emirados Árabes Unidos no sul e no litoral do Iémen).

O estranho da construção interna do Reino remonta à natureza da sua fundação por Ibn Saud em 1932, e à decisão muito posterior dos EUA de inverter o equilíbrio de poder histórico da Ásia Ocidental em favor da Arábia Saudita e os (recém-designados pós-II Guerra Mundial) monarcas, emires e xeques do Golfo.

Eu escrevi há algum tempo que a história das tensões dentro da identidade saudita “pertence diretamente a Muhammad Ibn intramabd al-Wahhab (o fundador do wahhabismo) e o uso que Ibn Saud deu ao puritanismo radical e excludente”.

A segunda vertente desta dualidade desconcertante refere-se precisamente à mudança subsequente do Rei Abd-al Aziz para a criação de um estado na década de 1920. Inicialmente, a conselho de um oficial britânico – Harry St.John Philby -, aceitou o conselho de que, ao armar o wahabbismo, poderia e iria liderar o Médio Oriente.

A subsequente contenção da violência wahabista por Abd-al Aziz (a fim de ter uma posição diplomática como Estado-nação com a Grã–Bretanha e os Estados Unidos) e sua institucionalização do impulso Wahhabista original – juntamente com o subsequente aproveitamento da torneira de petrodólares que surgiu oportunamente na década de 1970 – levou-o, no entanto, a canalizar a volátil corrente Wahabbista para longe de casa, exportando-a.

Esta corrente Wahhabista (posteriormente metamorfoseada em ISIS), que Philby tanto admirava, no entanto, foi uma reencarnação do movimento de vanguarda inicial, feroz e semi-independente de comprometidos “moralistas” armados do deserto que quase tinham conseguido tomar a Arábia no início de 1800. Abd-al Aziz, no entanto, começou a sentir que os seus interesses mais amplos se viam ameaçados pelo “jacobinismo” revolucionário exibido pelo movimento vanguardista. Este último revoltou-se com a tentativa de os conter – levando a uma guerra civil que durou até à década de 1930 – quando Abd-al Aziz mandou reprimir os extremistas: os britânicos metralharam-nos.

A questão é que a abordagem saudita Wahabbista ao Islão não morreu na década de 1930. Recuou e manteve o seu domínio sobre partes do sistema – daí a dualidade que observamos hoje na atitude Saudita em relação à guerra sectária contra Estados regionais, como a Síria.

O projecto saudita consolidou-se quando Richard Perle [2] e David Wurmser [3], encomendados por Netanyahu (na altura Primeiro-Ministro de Israel), produziram o documento de estratégia Clean Break em 1996. O Irão deveria ser despojado de aliados, e os monarcas e xeques do Golfo Pérsico deveriam liderar o novo paradigma estratégico na região.

Os monarcas e xeques do Golfo foram simultaneamente ungidos como representantes do domínio energético estado-unidense no Médio Oriente, bem como o contrapeso por trás do qual Netanyahu poderia traçar o projecto ‘grande Israel’ (acordos de Abraão).

“No verão seguinte à guerra de Israel contra o Hezbollah em 2006 (sem sucesso), Dick Cheney aprofundou esta estratégia de “Clean Break”. Cheney sentou-se no seu escritório lamentando em voz alta a força contínua do Hezbollah; e pior ainda, que lhe parecia que o Irão tinha sido o principal beneficiário da guerra do Iraque dos EUA em 2003″.

O interlocutor de Cheney – o então chefe da inteligência saudita, o príncipe Bandar – concordou vigorosamente (como narrado por John Hannah, que participou da reunião). Surpreendentemente, o Príncipe Bandar proclamou que o Irão ainda poderia ser reduzido à sua insignificância: a Síria era o elo ‘fraco’ entre o Irão e o Hezbollah que poderia ser colapsado através de uma insurgência islâmica, propôs Bandar. O cepticismo inicial de Cheney transformou-se em entusiasmo quando o príncipe Bandar disse que o envolvimento dos EUA seria desnecessário: ele, Bandar, orquestraria e administraria o projeto. “Deixe isso comigo”, disse ele.

Bandar disse a John Hannah: “O Rei sabe que, além do colapso da própria República Islâmica, nada enfraqueceria mais o Irão do que perder a Síria“.

Assim começou uma nova fase de atrito com o Irão. O equilíbrio de poder regional deveria ser decisivamente transferido para o Islão sunita liderado pela Arábia Saudita, em parceria com as outras monarquias da região. A guerra sectária foi assim legitimada pelo Vice-Presidente dos EUA, Dick Cheney.

Em suma, a Arábia Saudita era o pilar sobre o qual o Ocidente construiria o seu alcance Islâmico sunita para conter e confrontar o Irão e os seus aliados na frente de Resistência. Os estados do Golfo tornar-se-iam, posteriormente, o eixo em torno do qual se construiriam os ‘acordos de Abraão’ e a normalização com Israel.

No entanto … o projeto continha contradições inerentes: a natureza violenta do wahhabismo significava que a Arábia Saudita, apesar de toda a sua fanfarronice de liderança Islâmica, não tinha legitimidade para levar uma Umma muçulmana (comunidade muçulmana) a aceitar a liderança teológica saudita.

Em segundo lugar, o Reino foi construído sobre as areias movediças da relutante aquiescência tribal — uma dinâmica que poderia ser contestada aos primeiros sinais de que o controle monárquico estava a enfraquecer. Relatórios recentes sugerem que o Irão e o Hezbollah podem estar a falar de uma nova disposição tribal com líderes tribais na Península.

Os iemenitas não amam os sauditas. O Iémen representa, de facto, o alicerce mais autêntico do mundo árabe do que a Arábia Saudita. Muitas, se não a maioria das tribos em todo o Médio Oriente, remontam a sua ascendência às origens iemenitas.

No início dos anos 1930, o fundador da moderna Arábia Saudita, o Rei AbdulAziz Al-Saud, apreendeu e anexou peremptoriamente três províncias do Norte do Iémen e procurou impor o wahhabismo ao esotérico Islão Zaidi e Ismaelita do Iémen. Mais recentemente, nos últimos dez anos, a Arábia Saudita permitiu o bloqueio contra o Iémen controlado pelo movimento AnsarAllah.

É por isso que o projecto de AnsarAllah é uma ‘revolução‘ — é uma luta contra o poder imposto na era colonial. O aiatolá Khomeini previa que a Revolução Iraniana de libertação nacional e de soberania não seria a última revolução na região; previa que surgiriam inevitavelmente outras revoluções. O novo líder supremo do Irão, Mujtaba Khamenei, aludiu recentemente a isto quando falou do Iémen.

Ibrahim al-Amine, editor do Al-Akhbar, escreveu esta semana:

“Um dia, alguém surgirá para contar a história da relação entre ‘Ansar Allah’, o Hezbollah e o Irão; no momento presente, é necessário destacar apenas alguns pontos-chave … Sayyed Hassan [Nasrallah] … trabalhou para estabelecer o ‘entendimento mais preciso’ – que se tornou política oficial no Irão – moldando a sua percepção da posição e do papel do movimento’ Ansar Allah’. [Nasrallah] estava convicto de que o apoio a este grupo corajoso não tinha outro preço além das realizações que eles fizeram, que inevitavelmente serviram à causa maior …

“O que Ansar Allah alcançou em Bab Al-Mandab marcou um salto qualitativo no progresso deste movimento. Trata-se de um acontecimento que não pode ser separado do que está a acontecer em toda a região … O povo do Líbano e da Palestina compreenderá o significado do que’ Ansar Allah ‘ fez … um punhado de homens livres conseguiu destruir os castelos de areia com um único golpe …”.

É muito cedo para dizer se o que Ibrahim Al-Amine descreve como uma ‘vibração revolucionária’ na região vai pegar. Enquanto isso, os grandes media ocidental, sem surpresa, vêem os ataques iemenitas à Arábia Saudita exclusivamente através das lentes do seu impacto na crise energética do Ocidente e nas implicações para as relações EUA-Arábia Saudita. Mas, ao fazê-lo, obscurecem o outro aspecto – o impacto do notável sucesso de AnsarAllah na criação de um momento revolucionário. Como observa a Al-Amine:

“AnsarAllah conseguiu conquistar uma maioria significativa das tribos, argumentando que não é do interesse do Iémen deixar o país nas mãos de Estados, governos e poderes que o privaram da sua riqueza durante muitas décadas, roubaram os seus recursos, empobreceram-no … e depois tentaram impor uma perspectiva ideológica contrária a tudo o que está enraizado entre os povos da parte sul da península há mais de dois mil anos”.

O que estamos a testemunhar é uma reversão: a Ásia Ocidental parece estar a reverter para estruturas de poder anteriores, historicamente mais verdadeiras, à medida que a efémera alavancagem da iniciativa neoconservadora/Cheney, de base muito precária (usando o vanguardismo Wahhabi como bola de demolição) começa a ser posta de lado pela consciência e mobilização popular.

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Notas

[1] N.T. Também conhecidos como Houthis, são um movimento político-religioso e militar do ramo xiita zaidita que controla grande parte do Iêmen, incluindo a capital Sanaã.

[2] N.T. Richard Perle: Um influente conselheiro político e um dos principais ideólogos do movimento neoconservador (neocon) norte-americano. Foi secretário-assistente de Defesa no governo de Ronald Reagan e presidiu ao Conselho de Política de Defesa no governo de George W. Bush. Ficou conhecido pela sua linha dura e pelo apelido “Príncipe das Trevas” devido à sua postura militarista.

[3] N.T. David Wurmser: Outro importante intelectual neoconservador e especialista em Médio Oriente. Foi conselheiro de política externa do vice-presidente Dick Cheney e trabalhou em vários think tanks conservadores, como o American Enterprise Institute (AEI).

 


O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

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